sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Oh mundo, oh sombra, oh zombaria, oh nada!




À variedade do mundo

Este nasce, outro morre, acolá soa
Um ribeiro que corre, aqui suave,
Um rouxinol se queixa brando e grave,
Um leão c'o rugido o monte atroa.

Aqui corre uma fera, acolá voa
C'o grãozinho na boca ao ninho üa ave,
Um demba o edifício, outro ergue a trave,
Um caça, outro pesca, outro enferoa.

Um nas armas se alista, outro as pendura
An soberbo Ministro aquele adora,
Outro segue do Paço a sombra amada,

Este muda de amor, aquele atura.
Do bem, de que um se alegra, o outro chora...
Oh mundo, oh sombra, oh zombaria, oh nada!

      (1610-1663)

Poeta, magistrado. Alguns dos seus poemas foram reunidos na Fénix Renascida.
A maior parte da sua obra, em verso e em prosa, nunca veio a lume.

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Poema: in Projecto Vercial
Imagem: Pixabay

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Voici: la doudoune, le velours, le satin



La doudoune voltou este ano em todo o seu esplendor. Curta, comprida, cintada, fluida; em formato blusão, poncho, casaco, quimono; em diversos materiais, polyester, polyuréthane, coton, nylon, mais... bien gonflée. Uma peça de vestuário bem urbana, para usar com calças de tweed, uma saia fluide ou um vestido tube. A ideia é que vai bem com tudo e em qualquer situação. Penso que será o nosso kispo*, mas permitam-me continuar a tratá-lo no feminino pois acho "la doudoune" simplesmente adorável. O importante é que é reconfortante e quente em tempo de frio.




Uma outra novidade é o regresso do velours. Há quanto tempo não via um vestido, um casaquinho, uma coisinha qualquer em veludo!Pois, parece que agora é um must, apesar de haver notícias do seu ressurgimento em 2013, talvez em menor escala. Confesso que não me sinto nada tentada. Porém, noblesse oblige, não se pode fechar os olhos ao que acontece ao nosso redor. D'où vient le velours, grande tendance de la saison - interrogam-se na Marie France.


Também um outro tecido que agora está na moda é o satin. Há muitos anos que ele não faz grandes aparições no nosso dia-a-dia. De cetim talvez só vestidos de noiva e vestidos de noite, tops, lingerie, pelo menos é o que me parece. Contudo, com tantos tipos de cetim que há não me admiro nada que sejam usados à luz do dia e informalmente. 

Na revista Voici, donde retirei o apontamento sobre "la doudoune", há um conjunto composto de blouson en satin, sac en cuir, chemise en coton, patalon en velours, com a legenda: Dans les rues de Milan le satin est d'or.  Visto assim parece-me bem. Aliás, a revista refere ainda, entre outras coisas: Quant au satin, loin des années 80, il nous revient moins scintillant mais tout aussi brillant.



Dada a minha proverbial inaptidão para estas coisas de informática não me é possível trazer para aqui a imagem daquilo que descrevo no parágrafo anterior. Poderia fotografar a imagem, visto ter a revista. Mas, enfim. Para o cetim fui buscar as calças azul-turquesa** do blog de Lady Zorro, embora se refira ao inverno de 2016/2017. Parece que essa tendência já vem daí. 

Afinal, eis a imagem. Uma alma caridosa, a minha filha, ajudou-me nesta tarefa.

Desejo-vos um bom fim-de-semana. Ah! Ainda é quinta-feira. Voltarei, amanhã.






17/11/2017

Vou passar para aqui as minhas dúvidas quanto à cor das calças a que chamei "azul-turquesa":

**Azul-turquesa é mais claro, não?
Bem, talvez seja azul petróleo. Ou verde petróleo?
Cada vez me enterro mais, se calhar...

Uma ajudinha?

Agora sim. Bom fim-de-semana.

(Nota: não consigo pôr as letras do mesmo tamanho. Isto assumiu que eu queria letras pequeninas e não há volta a dar-lhe.)

Até que enfim. Consegui mudar o tamanho da letra.
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-Magazine Voici nº 1565, du 3 au 9 novembre
As duas primeiras imagens da revista ELLE
*Ou parka
**Azul-turquesa é mais claro, não?
Bem, talvez seja azul petróleo. Ou verde petróleo?
Cada vez me enterro mais, se calhar...

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

As cinzas - pensar nelas é preciso

O facto de não ter chovido é bom. É bom??? Admirar-se-á, e com razão, quem tenha a gentileza de me ler. Mas eu explico-me. Depois dos incêndios devastadores de vidas humanas e das nossas florestas, este compasso de espera da mãe-natureza poderá significar uma oportunidade para reparar e reconstruir as casas destruídas e tudo o mais que está à vista de todos. Nas nossas preocupações tem de estar, antes de tudo, o acarinhamento das pessoas que perderam os seus filhos e outros familiares e tudo o que tinham e que por isso mesmo se vêem perdidas na vida.



Por outro lado, há também toda uma envolvência ambiental que merece atenção. Não chove, o que é muito mau. Contudo, sabemos que as alterações climáticas criam situações de grande desequilíbrio e, por isso, tanto dá para não chover como para chover demasiado, com chuvas que poderão ser torrenciais. Aqui coloca-se o problema das cinzas decorrentes dos incêndios. Com a chuva, elas resvalam e vão alterar a qualidade da água nas barragens o que afectará a vida de todos nós. Diz quem sabe que há soluções técnicas para enfrentar o problema das cinzas resultantes dos incêndios, mas "dá trabalho" e exige que todos os vizinhos também o façam. Segundo a mesma fonte, a água corre porque tem um declive direito, mas se se fizerem valas isso já não acontece, vai-se infiltrando no terreno.

Há muita coisa em que pensar e outras tantas para fazer, reconheço. Mas isto de que estamos a falar, as cinzas, é assunto a que urge atender porque poderá transformar-se numa daquelas situações incontroláveis se não for acautelado a tempo e horas. Não esperemos pelas ansiadas chuvas para o fazer.


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Ver:
Ambientalista Eugénio Sequeira:
Especialista alerta para "grande problema" das cinzas quando chover
DN


terça-feira, 14 de novembro de 2017

Pergunta-me





Pergunta-me 
se ainda és o meu fogo
se acendes ainda
o minuto de cinza
se despertas
a ave magoada
que se queda
na árvore do meu sangue

Pergunta-me
se o vento não traz nada
se o vento tudo arrasta
se na quietude do lago
repousaram a fúria
e o tropel de mil cavalos

Pergunta-me
se te voltei a encontrar
de todas as vezes que me detive
junto das pontes enevoadas
e se eras tu
quem eu via
na infinita dispersão do meu ser
se eras tu
que reunias pedaços do meu poema
reconstruindo
a folha rasgada
na minha mão descrente

Qualquer coisa
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer 


In:Raiz de Orvalho

António Emílio Leite Couto, moçambicano, escritor, biólogo.
O seu novo livro: "O Bebedor de Horizontes" que o autor classifica como o seu maior desafio enquanto escritor. Confira, aqui.

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Poema: Citador
Imagem: Pixabay


segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Fintar a morte

Era a guerra. Nas minhas costas sentia o crepitar das balas e a moto, puxada ao máximo, galgava por onde desse. Eu era a protecção de quem ia a conduzir e não podia ser doutro modo. Para a frente é que era o caminho em direcção ao downtown, onde morava uma prima minha. A filha mais nova, a Margarida, de 3 anos, saltou de alegria quando nos viu, cantando e dançando. E com tanta pouca sorte que caiu e bateu com a boca no fio da mesinha da sala. Muito sangue. Não havia meio de fazê-lo parar. Tivemos de decidir depressa e ir à procura de um hospital onde pudesse ser atendida. Com a tensão existente, tivemos de passar por vários postos de controlo. O importante é que ela ficou bem. Desses dias de susto compostos de vários episódios aflitivos, é o que mais me emociona ainda hoje. A lembrança das filas de racionamento, da pouca água, do perigo constante, serve-me para dar importância a umas coisas e não a outras, relativizando-as.


Assim, acredito que toda a história tem vários lados e a própria História, como disciplina, sendo uma construção humana, é passível de várias interpretações. Ocorre-me perguntar, de que são feitos os heróis? Respondo: Penso que são feitos, muitas vezes, de momentos fortuitos. E, sim, precisamos deles e dos nossos mitos e lendas como do pão para a boca. Os rituais associados a essa representação são elementos fundamentais para que nos sintamos unidos como povo. São eles que nos guiam e, em momentos de crise, é bom que os tenhamos bem presentes. Lembro-me de ter lido, no tempo em que tinha de fazer essas leituras, que na mitologia romana os  mortos tinham a designação de Manes, espíritos dos entes queridos com a função de proteger a família, uma espécie de deuses do lar, já para não falar de culturas no nosso mundo contemporâneo que têm um relacionamento similar com a morte.

Camões, em "Os Lusíadas", universaliza para sempre a melhor maneira de fintar a morte, pondo a tónica em: (...) E aqueles que por obras valerosas/ Se vão da lei da morte libertando;/ Cantando espalharei por toda a parte/ Se a tanto me ajudar o engenho e arte.



É isso. Tenhamos elevação de espírito. Honremos os nossos mortos, celebrando a vida. As nossas conquistas de todos os dias, pequenas ou grandes, não interessa o tamanho. O fundamental é sentir que estamos a construir algo de útil para nós e para os outros, com a mente aberta. Ficarmos enredados em tricas, intrigas e quejandos é uma forma depressiva de nos diminuirmos como povo. Cantemos e dancemos em honra dos nossos heróis, espalhando por toda a parte a notícia do legado de que somos herdeiros.

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Imagem 1 - daqui
Imagem 2

   

sábado, 11 de novembro de 2017

Gota a gota

O "São Martinho" já não é o que era. Aquele suspense que se vivia nos dias antecedentes já bastante chuvosos, já frios, com o cheiro a castanhas assadas, à espera do dia 11, cheio de Sol, não aconteceu este ano. O Verão, um Verão castigador, prolongou-se indefinidamente. E hoje comemos castanhas, sim, mas há qualquer coisa que falta.



A situação de seca extrema em alguns pontos do nosso país abala-nos e adivinhamos tempos bastante problemáticos, tanto para a agricultura como para o gado. A própria água para consumo já falta nas torneiras. Urge que tenhamos bem presente que é preciso poupar água, utilizando-a de forma racional. Para poupar água, já o tenho referido e toda a gente o sabe, há que começar a fazê-lo nas nossas casas, nos nossos quintais, nas pequenas propriedades de cultivo que circundem as nossas casas.



Não há dúvida que as alterações climáticas é um problema que temos de levar muito a sério. Nós os leigos não sabemos muito bem o que pode acontecer, mas deu para perceber que nada de bom virá dali. E de nada vale ficarmos à espera que os cataclismos aconteçam para depois tomarmos medidas. Enquanto as crises e as emergências não nos assoberbem, aproveitemos para pensar nas coisas e encontrar soluções. É sempre bom dizê-lo, repeti-lo e convencermo-nos disso.



Pensemos. Pensemos todos na melhor maneira de ir minorando esse grande problema. Ponhamos questões, conversemos uns com os outros. Não chovendo, ou não chovendo o suficiente, o que fazer? Será que a adopção de sistemas de rega gota-a-gota poderia ajudar, pelo menos, a produzir aquele mínimo necessário, quase uma agricultura de subsistência? Claro que o ideal será produzir em grande escala. Talvez mesmo para isso a ideia não seja descabida porque já experimentada. Mas, deixo isso para as grandes cabeças, capazes de vislumbrar grandes soluções. 



Já pude verificar in loco que o sistema de rega gota-a-gota dá resultados excelentes. Com a água direccionada para as raízes das plantas ela é toda aproveitada. Há quem refira que uma das desvantagens de tal sistema é que a  sua instalação é dispendiosa. Será. Mas, para grandes males, grandes remédios e aí as ajudas institucionais seriam bem-vindas.   

Desejo-vos um dia de São Martinho agradável.

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Comentário da amiga Odete Ferreira, um grande contributo para o tema deste post:


Muito importante esta postagem...
Sou, por natureza, uma poupadora dos recursos naturais e, com assertividade, vou captando adeptas; a senhora que me ajuda nas tarefas caseiras já se rendeu; no princípio , já me disse, não me entendia. Quanto à água, nenhuma é desaproveitada:enquanto não chega a água quente, encho um garrafão; a das lavagens é reutilizada no WC; rega, é conta-a-gota, eliminei a relva, etc. Um vez, num programa de rádio local, onde era comentadora residente, dei conta destas coisas; um dos colegas de programa, riu-se. Gostava de saber o que ele diria no caso desta seca extrema que a todos nos aflige. Incidi na questão da água, mas há muitos outros procedimentos de são gestos naturais em mim.

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Sistema de rega gota-a-gota

Imagem 1 - daqui
Imagem 2 - daqui
Imagem 3 - daqui
Imagem4 - daqui

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Acordar da cidade de Lisboa

Acordar da cidade de Lisboa, mais tarde do que as outras,
Acordar da Rua do Ouro,
Acordar do Rossio, às portas dos cafés,
Acordar
E no meio de tudo a gare, que nunca dorme,
Como um coração que tem que pulsar através da vigília e do sono.  

Toda a manhã que raia, raia sempre no mesmo lugar,
Não há manhãs sobre cidades, ou manhãs sobre o campo.
À hora em que o dia raia, em que a luz estremece a erguer-se
Todos os lugares são o mesmo lugar, todas as terras são a mesma,
E é eterna e de todos os lugares a frescura que sobe por tudo.

Uma espiritualidade feita com a nossa própria carne,
Um alívio de viver de que o nosso corpo partilha,
Um entusiasmo por o dia que vai vir, uma alegria por o que pode acontecer de bom,
São os sentimentos que nascem de estar olhando para a madrugada,
Seja ela a leve senhora dos cumes dos montes,
Seja ela a invasora lenta das ruas das cidades que vão leste-oeste,
Seja […]

A mulher que chora baixinho
Entre o ruído da multidão em vivas...
O vendedor de ruas, que tem um pregão esquisito,
Cheio de individualidade para quem repara...
O arcanjo isolado, escultura numa catedral,
Siringe fugindo aos braços estendidos de Pã,
Tudo isto tende para o mesmo centro,
Busca encontrar-se e fundir-se
Na minha alma.

Eu adoro todas as coisas
E o meu coração é um albergue aberto toda a noite.
Tenho pela vida um interesse ávido
Que busca compreendê-la sentindo-a muito.
Amo tudo, animo tudo, empresto humanidade a tudo,
Aos homens e às pedras, às almas e às máquinas,
Para aumentar com isso a minha personalidade.
Pertenço a tudo para pertencer cada vez mais a mim próprio
E a minha ambição era trazer o universo ao colo
Como uma criança a quem a ama beija. 
Eu amo todas as coisas, umas mais do que as outras —
Não nenhuma mais do que outra, mas sempre mais as que estou vendo
Do que as que vi ou verei.
Nada para mim é tão belo como o movimento e as sensações.
A vida é uma grande feira e tudo são barracas e saltimbancos.
Penso nisto, enterneço-me mas não sossego nunca.

Dá-me lírios, lírios

E rosas também. 

Álvaro de Campos*





Álvaro de Campos está aqui possuído pelas sensações do Mestre Alberto Caeiro:"Nada para mim é tão belo como o movimento e sensações". Por estes dias estamos bem equipados com sensações, emoções e também movimento. Este, mais ainda.

A movimentação de 60000 pessoas e mais as pessoas da terra não é brincadeira. Cada uma dessas pessoas traz dentro de si os seus sonhos, as suas ideias, as suas ambições. Um fervilhar imenso. Uma energia que, se fosse quantificada, daria para iluminar meio mundo. E quem sabe se não ilumina mesmo. Nada viaja tão bem e através dos tempos como as ideias. O sal da terra.

Por estes dias o centro gravitacional de Lisboa não é a Rua do Ouro, o Rossio ou a Gare (subentende-se - Restauradores). Há sim uma gare a do Oriente e associando-se a ele o Parque das Nações. O mundo das tecnologias em efervescência. Uma espécie de contactos imediatos do 3º grau, reportando-me ao filme de há alguns anos (1977).

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Poema: Banco de Poesia Fernando Pessoa
*Heterónimo de Fernando Pessoa
Imagem Net

domingo, 5 de novembro de 2017

Da morabeza



A conquista da poesia     

Era um castelo erguido na montanha
da paisagem deserta submarina
tinha muros altamente inacessíveis
ao salto imaginário do meu pensamento

Minha musa você diga-me
onde mora a poesia
quero ir deitar-me com ela
quero amá-la toda a noite

Fiquei parado à porta do castelo
os muros tolhiam meus passos
mas de dentro vinhas gritos de alegria
de meninos correndo numa cerca

Minha musa você conte-me
a história da bela adormecida
que quando eu era menino
Manhanha gostava de me contar

No alto do castelo tinha um vulto
tinha uma mulher vestida de vermelho
lembrando-me todas as princesas encantadas
dos sonhos inocentes de minha infância

 (1925-2015)

Arnaldo Carlos de Vasconcelos França nasceu na cidade da Praia, Cabo Verde, em 1925. Graduado em Ciências Sociais e Políticas pela Universidade Técnica de Lisboa, diz-nos António Miranda no seu site, donde trouxe este poema.

Ao jornal "A Semana" fui buscar estes elementos:

"Ensaísta de craveira, Arnaldo França escreveu numerosos ensaios literários dos quais se destacam os dedicados à obra de António Aurélio Gonçalves, Guilherme Dantas e Jorge Barbosa. Como poeta, também participou, ainda enquanto estudante do Liceu Gil Eanes, na revista Certeza, e mais tarde, graduou-se em Ciências e Políticas pela Universidade Técnica de Lisboa. Foi um exímio crítico e estudioso da literatura cabo-verdiana", escreve a página do Governo.
"França destaca-se, igualmente pelo seu enorme contributo para a valorização da língua cabo-verdiana, tendo ao longo da sua vida, traduzido para o “crioulo” alguns imortais da literatura de língua portuguesa como Camões e Fernando Pessoa. Da sua obra fazem parte ainda várias colaborações com nomes como Félix Monteiro António Carreira, Jaime Figueiredo, ainda às vésperas da Independência, quando integrou o Centro de Estudos de Cabo Verde. Animou a Revista Raízes, um marco fundamental no pós-independência".
Muito mais há para saber sobre este grande Senhor. 
Quanto a mim, para além de ter ficado presa na riqueza dos seus poemas fiquei embasbacada com as traduções para o crioulo de poemas de David Mourão-Ferreira, de Fernando Pessoa, ortónimo, e de três dos seus heterónimos mais conhecidos, aqui, na Esquina do Tempo. Qualquer coisa de sublime.
Em sua honra foi criado pelas imprensas nacionais de Portugal e de Cabo Verde o Prémio literário Arnaldo França, que irá distinguir, anualmente, escritores cabo-verdianos. O prémio foi anunciado no Festival literário Morabeza que decorre desde 30 de Outubro e terá o seu término hoje, dia 5 de Novembro.
É a primeira edição desse Festival literário que promete vir a transformar-se num grande festival lusófono. 

Desejo-vos um bom domingo.

Abraço.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

A mulher em Portugal



Segundo consta, hoje é o dia das donas de casa. Não vou tecer quaisquer considerações sobre esta condição da mulher porquanto todos nós sabemos o que tem sido ao longo dos tempos. Mas, não resisto: depois da mulher lutar pela sua liberdade no trabalho, por um salário compatível e outros direitos vê-se que, ao fim e ao cabo, apesar de ter alcançado algumas vitórias ela, a mulher, vê essas conquistas virarem-se um pouco contra si própria. Trabalha fora para acorrer às despesas conjuntas e trabalha em casa, com todos os seus deveres, e nem sempre lhe é permitido ter uma carreira de sucesso. Não só a própria sociedade a policia como em termos domésticos raramente lhe é reconhecido esse direito.



Trago-vos o resultado de uma pesquisa muito interessante que tem em vista a situação da mulher vertida em legislação, que foi sendo produzida ao longo dos tempos. Trata-se de 2 volumes datados, do Sec. XII ao Sec. XXI (1112 a 2014), com este título e subtítulo: A mulher em Portugal - Alguns aspetos do evoluir da situação feminina na legislação nacional e comunitária.* A apresentação, logo no seu início, presenteia-nos com esta citação:

"Quando os Direitos Humanos das Mulheres são violados
e a sua participação na sociedade limitada,
é a humanidade no seu conjunto que é questionada,
é o tecido social que é destruído”.

Denise Fuchs, Presidente do 

Façam esta viagem. Passem os olhos pelos elementos compilados e vejam como de 1112 a 1499 só vemos referências ao papel desempenhado por rainhas e princesas. A partir de 1518 vemos alargar-se esse universo quando num mesmo documento lemos: "princesas, damas da corte e molheres de condição inferior". Em 1521 nas Ordenações Manuelinas, aparecem a "molher" e as "molheres" em vários pontos, para o bem ou para o mal. E assim por diante, passando pelas grandes transformações a partir de 1910 (implantação da República) que o Estado Novo volta a menorizar. Da Revolução de Abril de 1974 renasce para a mulher portuguesa o sentido de dignidade e reclama para si o direito à autodeterminação. A viagem não termina aqui, continua ainda.  

Este é um documento que é uma ferramenta de trabalho inestimável. Quem quiser pegar num ou outro ponto poderá partir para grandes descobertas.

Boa leitura!

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*A mulher em Portugal - Alguns aspetos do evoluir da situação feminina na legislação nacional e comunitária. Volume I e Volume II
Direcção-Geral da Segurança Social - Núcleo de Documentação e Divulgação

Imagens: Pixabay

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Poupar, poupar e...poupar

No poupar é que está o ganho, lá diz o povo na sua infinita sabedoria. Mas a Dona Maria, senhora de fino trato que já vos trouxe a estas páginas, está a cada dia que passa mais descrente desse aforismo popular. Encontrei-a a sair da mercearia da nossa aldeia e prontifiquei-me a ajudá-la com os sacos que, na verdade, era só um. 



Ela atalhou logo: 
-Ai filha, nem vale a pena. Veja como está levezinho. Quando não é uma coisa é outra e lá se vai a reforma. Tem uma coisa boa. Com a carestia, já não preciso de ajuda para levar as compras para casa. É um favor que me fazem. E também já não preciso de muito. 
-Vá lá, não diga isso.
-Digo, digo (sorriu com tristeza). Antigamente quando se pensava em poupar víamos o resultado dessa poupança. Agora a "poupança" tem outro significado. Nos tempos da troika a poupança era aquilo que nos tiravam com ajustamentos e outros eufemismos.
-Mas, presentemente...
-Ah, isso! (sorriu de novo). Ouve-se falar em devolução. Compreendo que se refiram à devolução de direitos. Em todo o caso acho que devolver era outra coisa. Era, em termos retroactivos, entregar o que nos tinha sido retirado ao mesmo tempo que eram repostos direitos. Mas, que digo eu? Isto é sonhar acordada, não acha?
-Bem, o sonho comanda a vida, diz o poeta.
-Valha-nos ao menos a poesia. Gosto muito de poesia, sabe? Claro que sabe. Já temos falado sobre isso. Mas, voltando à crueza da vida no outro dia fui à Caixa receber a reforma e sabe qual foi o meu espanto? Passaram a cobrar-me a manutenção da conta...
-Então, como é agora? Bastava a domiciliação do salário e se não fosse o caso ter determinada quantia na conta, não?
-Pois, agora mudou tudo. A partir de um salário e meio passamos a pagar 5€ e não interessa se a pessoa tem alguma poupança, coisa que eu não tenho e ainda bem senão ficaria mais revoltada ainda.
-Realmente, todos os dias sai uma novidade...
-E que novidade! Mas, ainda há outra coisa. Disseram-me que se não quisesse que me fossem retirados os tais 5€ tinha de assinar uma carta e assim passaria a pagar só 2.50€. Claro que assinei e era já um impresso pré-definido o qual não cheguei a ler de modo que estou na dúvida sobre o que terei assinado. Deram-me um duplicado, tenho de o ler pois não percebi nada.
-Ah, acho que sim, devia lê-lo. 
-Há outra coisa, no meio de tantas outras, que me pôs hoje muito mal-disposta. Como sabe gosto de ver alguns canais do Cabo, como História, Discovery, National Geographic e mais um ou outro. Pois, qual não foi o meu espanto desapareceram de um momento para o outro apesar de ter o pagamento em dia...
-Então, tem de ligar para lá para saber o que se passa. E quanto mais depressa melhor. Se precisar de ajuda é só dizer.
-Minha amiga, muito obrigada. Já o fiz. E sabe qual foi a resposta? Como o meu televisor não é daqueles XPTO tenho de adaptar nele um sincronizador, um DTA (imagine), de modo a poder aceder aos tais canais. A operadora informou-me que aluga o dito aparelho e apresenta a conta mensalmente na factura. Pedi a um dos meus netos para ir ver se eventualmente poderia comprá-lo, está esgotado.
-Já não é a primeira pessoa que me fala nisso. No outro dia uma vizinha também esteve a queixar-se...
-O passo seguinte será obrigarem-nos a deitar fora televisores bons para seguirmos na onda do desperdício. E ainda se fala em poupança e poupanças. Mas chega de falar de tristezas. Tenha um bom dia, filha.

-O mesmo lhe desejo, Dona Maria. Até um dia destes.

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Curiosidade sobre XPTO
Imagem: Pixabay

domingo, 29 de outubro de 2017

Deixai que a vida sobre vós repouse






Deixai que a vida sobre vós repouse
qual como só de vós é consentida
enquanto em vós o que não sois não ouse

erguê-la ao nada a que regressa a vida.
Que única seja, e uma vez mais aquela
que nunca veio e nunca foi perdida.

Deixai-a ser a que se não revela
senão no ardor de não supor iguais
seus olhos de pensá-la outra mais bela.

Deixai-a ser a que não volta mais,
a ansiosa, inadiável, insegura,
a que se esquece dos sinais fatais,

a que é do tempo a ideada formosura,
a que se encontra se se não procura.

in: As Evidências

     (1919-1978)


Jorge de Sena é considerado um dos grandes poetas de língua portuguesa e uma das figuras centrais da cultura do nosso século XX.

A sua obra, vasta e multifacetada, compreende mais de vinte coletâneas de poesia, uma tragédia em verso, uma dezena de peças em um ato, mais de trinta contos, uma novela e um romance, e cerca de quarenta volumes dedicados à crítica e ao ensaio (com destaque para os estudos sobre Camões e Pessoa, poetas com os quais a sua poesia estabelece um importante diálogo), à história e à teoria literária e cultural (os seus trabalhos sobre o Maneirismo foram pioneiros, tal como a sua história da literatura inglesa, e a sua visão comparatista e interdisciplinar das literaturas e das culturas foi extremamente fecunda), ao teatro, ao cinema e às artes plásticas, de Portugal, do Brasil, da Espanha, da Itália, da França, da Alemanha, da Inglaterra ou dos Estados Unidos, sem esquecer as traduções de poesia (duas antologias gerais, da Antiguidade Clássica aos Modernismos do século XX, num total de 225 poetas e 985 poemas, e antologias de Kavafis e Emily Dickinson, dois poetas que deu a conhecer em Portugal), as traduções de ficção (Faulkner, Hemingway, Graham Greene, entre 18 autores), de teatro (com destaque para Eugene O’Neill) e ensaio (Chestov). Ler mais...

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Poema: Citador
Imagem: Pixabay

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Ignorância sábia




Aconteceu aos verdadeiros sábios o que se verifica com as espigas de trigo, que se erguem orgulhosamente enquanto vazias e, quando se enchem e amadurece o grão, se inclinam e dobram humildemente. Assim esses homens, depois de tudo terem experimentado, sondado e nada haverem encontrado nesse amontoado considerável de coisas tão diversas, renunciaram à sua presunção e reconheceram a sua insignificância.(...)

Quando perguntaram ao homem mais sábio que já existiu o que ele sabia, ele respondeu que a única coisa que sabia era que nada sabia. A sua resposta confirma o que se diz, ou seja, que a mais vasta parcela do que sabemos é menor que a mais diminuta parcela do que ignoramos. Em outras palavras, aquilo que pensamos saber é parte — e parte ínfima — da nossa ignorância. 

in:Ensaios

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Texto:Citador
Imagem:Pixabay

domingo, 22 de outubro de 2017

Catalunha - o impasse

Momentos houve na História em que Portugal e a Catalunha andaram a par e passo na moldagem dos seus próprios destinos.

No dia 1º de Dezembro 1640 um grupo de 40 conjurados, como ficaram conhecidos, num golpe de estado revolucionário restauraram a independência de Portugal, dando por finda a dinastia filipina que nos governou durante 60 anos. Foi aclamado rei o duque de Bragança, D.João IV. A guerra da Restauração arrastou-se por 28 longos anos (1640 a 1668). Foram várias as batalhas que se travaram as quais iam sendo ganhas por Portugal, algo quase incompreensível sabendo que tínhamos saído de uma situação de grande fragilidade.

Meses antes, no dia 7 de Junho de 1640 a Catalunha sublevou-se tendo como motivos mais próximos a vinda de soldados do resto de Espanha para o seu território num dos episódios da Guerra dos 30 anos que opunha várias nações da Europa, tendo como causas rivalidades religiosas, dinásticas, territoriais e comerciais. A revolta da Catalunha, conflito bélico, durou até 13 de Outubro de 1652 e, nesse ínterim, em 1641, foi proclamada a República da Catalunha. Entretanto faleceu o seu líder Pau Claris. O conflito aumentou de proporções e várias foram as situações da referida guerra dos 30 anos que levaram à assinatura do Tratado dos Pirenéus, 1659, tendo Espanha cedido a França as partes norte da Catalunha, incorporadas no condado do Rossilhão. 

Nesse Tratado, Portugal continuava a ser referido como parte de Espanha, não obstante ter declarado a restauração da sua independência em 1640. Continuavam as batalhas nas fronteiras portuguesas, talvez, mais escaramuças do que outra coisa. Essa situação só era possível porque a pressão da revolta da Catalunha não permitia que Espanha se concentrasse nas frentes de batalha com todas as suas forças no caso português que, por sua vez, vê os seus objectivos concretizados com a assinatura do Tratado de paz de 1668, já no reinado de D. Afonso VI, pela mão do Regente D. Pedro (Infante/Regente). 

Claro que esta história não se esgota neste pequeno texto cheio de imprecisões. Convido-vos a uma leitura mais aturada, pelo que indico abaixo alguns links para o efeito.


Mas, chegados à actualidade, a Catalunha revê-se no seu passado e as pretensões enraízadas no Sec. XVII, ou mais atrás, e postas à prova em várias ocasiões têm vindo a tornar mais forte a sua vontade de ascender à independência. Aquando da votação do referendo, alguns catalães levavam um cravo vermelho, um símbolo de liberdade e de revolução pacífica relembrando o nosso 25 de Abril 1974

O que de concreto se sabe agora é que foi decretada a suspensão do governo catalão e que o Presidente da Generalitat promete a proclamação da independência para daqui a dias, se é que ouvi bem. É legal? Não é legal? Nada sei da Constituição espanhola e da aplicação do famoso artigo 155º. O que me parece é que é hora de ambas as partes entrarem em diálogo a bem do povo catalão.

Desejo-vos um bom domingo.

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Catalunha - ver aqui
Opinião:A independência da Catalunha:O labirinto juridico-político
Imagem: Uma vista de Barcelona


quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Estar aqui e ser agora

O poder político é, conforme a clássica definição de Max Weber, uma estrutura complexa de práticas materiais e simbólicas destinadas à produção do consenso. Isto é, o poder político, ao contrário das restantes formas de poder social, implica que haja uma relação entre governantes e governados, onde o governante exerce um poder-dever e o que obedece, obedece porque reconhece o governante pela legitimidade deste.

Assim, o espaço normal do processo político é o da persuasão. O da utilização da palavra para a comunicação da mensagem e a consequente obtenção da adesão, enquanto consenso e não unanimidade, onde há obediência pelo consentimento, onde o poder equivale à negociação.

Só quando falha este processo normal de adesão comunicativa é que o governante trata de utilizar a persuasão com autoridade, com o falar como autor para auditores, onde o autor está situado num nível superior e o auditor no nível inferior da audiência. Com efeito, o emissor da palavra não está no mesmo plano do receptor, está num lugar mais alto, aquele onde se acumula o poder.

Num terceiro passo vem a astúcia, o ser raposa para conhecer os fios da trama, esse olhar de coruja, que nos tenta convencer, actuando na face invisível do poder, nomeadamente para enganar o outro quanto à identificação dos seus próprios interesses, ou criando, para esse outro, interesses artificiais. Isto é, quando falha a comunicação pela palavra, mesmo que reforçada pela autoridade, vem o engodo, a utilização da ideologia, da propaganda ou do controlo da informação. O que pode passar pelo controlo do programa de debates, com limitação da discussão ou evitando o completo esclarecimento dos interesses das partes em confronto.

Excerto de um texto em que José Adelino Maltez, o nosso poeta do post anterior, (também investigador de ciência política, também professor universitário) analisa os princípios teóricos do sistema político na óptica de alguns autores que ele identifica no mesmo. Poderá lê-lo na íntegra aqui. Interessante o que se encontra escrito no topo: José Adelino Maltez, Tópicos Jurídicos e Políticos, estruturados em Dili, na ilha do nascer do sol, finais de 2008, revistos no exílio procurado da Ribeira do Tejo, começos de 2009.

De referir que no excerto que ora publico o itálico é do original.




Aproveitemos o ensejo e mergulhemos em mais um dos seus poemas:

Estar aqui

Estar aqui e procurar descobrir
a minha própria procura.
Estar aqui e ficar à espera
do que o tempo me trouxer.
Não desesperar com a demora.
Seja o que Deus quiser!

Cansa estar aqui por estar apenas aqui,
nos meandros da procura,
procurando o meu porquê.

Dar porquês a cada momento, farta
Apetecia ser um outro qualquer,
este lugar não ter de ser
e poder mudar meu tempo.

Porquê ter de haver um sítio e um momento?
Para que servem coordenadas no espaço do pensamento?
Vivo, logo tenho que sonhar.

No próprio tempo que tenho
procurar eternidade.
Ousar chegar mais além, na teia das palavras que procuro, aqui e agora.

Utopia não há, nem vale a pena.
Sobretudo, para quem do poema faz
o seu próprio mais além.
O além de quem tem de estar aqui e agora e viver, o dia a dia.
Hora a hora, sagrar
o deus instante que Deus me deu.

Viver tem de ser
viver aqui e agora,
sem temer o que vai acontecer
depois de meu próprio morrer.
Porque apetece o perfume dos dias
e não cansar-me de procura.
A longo prazo só morrem
os que temem a própria morte.
Estar aqui e ser agora,
procurando descobrir os meandros da procura.
Ficar assim, hora a hora, à espera do tempo que vier.
Seja o que Deus, sem mais disser,
seja o que Deus quiser.

In: No princípio era o mar - p.9

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Imagem: aqui
Poema : daqui

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Esta poesia do calor amarela e seca



Esta poesia do calor amarela e seca
esta campina agreste a demarcar-me
os caminhos ásperos e mediterrânicos
de meu país de silvas e piteiras,
com o sol a pique sobre a poeira
das planuras desabrigadas

Paira na charneca taciturna
o silêncio de um grito por dar
e o húmus gretado pela impiedade solar
abre as entranhas à brisa
que em suas crinas arrasta
um verde som de frescura

os lábios da terras ressequidos
vão pedindo ao vento gotas de mar
neste comum queimar de terra
nada que salpique a poeira de pureza
um céu cujo azul o calor não deixa ver
e uma luz baça e sufocante
que nos enlouquece e nos faz delirar

Sinto a irreal carícia das searas ondulando
e um intenso cheiro a campo
deserta meu sentimento
Por entre o rumor das cigarras
o compasso desta hora em constante despedida

In:Pátria prometida - excerto pg.16



E já chove. Pelo menos, choveu ontem à noite aqui na minha aldeia. Que ela, a chuva, continue a cair mansa e benfazeja. Que a natureza nos tome ao seu cuidado e faça a gestão do mar de cinzas que grassa pelo nosso país.

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Poema: daqui
Imagem: Pixabay

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Ler nas estrelas

E a chuva que não vinha. Todos os anos era aquele sufoco. Ele espreitava todos os sinais, sopesava-os e ia dizendo da sua justiça. À noite espreitava o céu. Huuumm...a lua com aquele halo amarelo não dizia nada de bom, mas a estrada de santiago prometia, leitosa, poderia ser um bom presságio. De dia via as nuvens a formarem-se prenhes de água, ai, mas os pássaros todos em revoada, prenúncio de vento que as levaria para longe. E assim era. Todas a despejarem-se no mar. Aquela leitura já a sabíamos de cor e, realmente, não falhava. Até nós olhávamos para a abóbada celeste com as mesmas  perguntas.

Chegava o dia em que a chuva, marota, depois de várias negaças lá resolvia visitar-nos. Não importava se era pouca ou muita, era sempre uma festa. Lavava a alma. Para já, o importante era que desse para as sementeiras. Tudo preparado naquela espera, toca de correr para os campos. E o milho medrava naquele chão de pousio durante tanto tempo, feliz por poder mostrar do que era capaz, com todos os seus elementos.

Agora o leitor das estrelas voltava a sua atenção para as plantinhas que, quase a medo, iam despontando. Ou o medo estaria no seu coração? Auscultava-lhes a cor, a resistência, o futuro. Se resistissem até à monda e a chuva voltasse em tempo devido tínhamos colheita garantida. E recomeçava o perscrutamento dos céus, o comportamento da lua, das constelações, do voo dos pássaros, do sol, quente e devastador.

Até que um dia, um belo dia, num ano qualquer, dava-se o milagre e completava-se o ciclo. Sementeira, monda, colheita, passando pelo ansiado dia de Santo André em que íamos comer milho verde assado, não sei se havia dispensa da escola ou como é que era mas o certo é que isso faz parte das minhas memórias. Na colheita, os homens e mulheres chamados para o efeito começavam logo de manhã e, pelo caminho, iam deixando algumas espigas para nós recolhermos.

E ajudávamos a descascar o precioso cereal à procura de uma espiga vermelha. E ouvíamos as histórias que eles contavam. E espreitávamos com afinco os bolos de milho, a mandioca, a batata doce que punham a assar na cinza quente.

O leitor das estrelas. O meu pai.

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Dedico este pequeno texto a quem por aqui por passar, com votos de dias de muita esperança.

Abraço.

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1ªImagem: Pixabay
2ª imagem:net

domingo, 15 de outubro de 2017

Isto é Verão ou quê?



Completamente virado do avesso o tempo prodigaliza-nos temperaturas que convidam ao chinelo no pé, à blusinha de alças, ao uso de calções, ao biquini, ao fato de banho, estendendo-nos na areia molhada, passando bronzeador, dando uns bons mergulhos, sozinhos ou com a família e amigos, com uma boa merenda, enfim a tudo a que teríamos direito num clima tropical.

Mas, não é esse o caso e para que tudo funcione por cá é fundamental que as quatro estações do ano sigam o seu ciclo e em cada época a natureza colabore connosco para que não nos falte o necessário. A verdade é que o destempero do nosso clima temperado já há muito se nota com a falta de chuva: o chão cada dia mais crestado, as culturas fenecendo, os animais quase sem água para beber. Há locais onde a água nas torneiras já não apareceria se a edilidade não a mandasse buscar, bombeando-a depois para os depósitos.

A juntar a isso o fim da tal "época de fogos" que já tinha sido decretado, levando ao encolhimento de recursos, afinal reacendeu e então quem de direito, desavisado, foi apanhado desprevenido como se não existisse tecnologia que ajude a fazer previsões* a fim de se tomarem as devidas providências a tempo e horas. Ou talvez não haja.

Preocupemo-nos, queridos concidadãos. Não basta aproveitar o bom tempo e dizer e desejar: para mim era praia o ano todo, este calorzinho vem mesmo a calhar, deu para descontrair, e etc. Temos de fazer alguma coisa. E como não possuímos poderes sobrenaturais e já não se vê muita fé na dança da chuva ou nas procissões há que poupar a água em nossas casas. Quem não souber como fazer da melhor forma pesquise na internet. Há muita informação sobre isso. 

Lembremo-nos que de toda a água que existe no nosso planeta a água doce tem uma percentagem pequeníssima. E da água potável então nem se fala: há regiões no globo que não a têm.

Foi só um desabafo.

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NOTA EM 16/10/2017

Incêndios:

.800 246 246 - Protecçao civil (número de emergência)

Fonte: Rádio Renascença


.A Segurança Social está a disponibilizar apoio de emergência às populações afectadas pelos incêndios em vários postos dos distritos de Viana do Castelo, Guarda e Coimbra (...)


Fonte: Público online

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*climáticas
Imagem: Pixabay