quarta-feira, 19 de julho de 2017

A Princesa Perfeitíssima e as Misericórdias (i)

Ela é Leonor de Avis ou Leonor de Lencastre, e mais outros títulos, senhora de grandes virtudes, casada com D. João II, o Príncipe Perfeito. Reinou no auge da expansão portuguesa e foi considerada a rainha mais rica da Europa.

Lê-se aqui que: 

As rainhas de Portugal contavam com o rendimento de bens senhoriais e patrimoniais da Coroa destinados à sua sustentação e dignidade. Este patrimônio era chamado Casa das Rainhas. Dona Leonor, além das vilas herdadas das rainhas que a precederam, foi dotada pelo rei com as cidades de Silves e Faro, e as terras de Aldeia Galega e Aldeia Gavinha. Na Casa das Rainhas que manteve em viuva, mesmo depois de D. Manuel casar, estava também incluida a cidade das Caldas, que ela própria fundara.*


Ela soube empregar a sua riqueza e influência em obras meritórias que constituem um precioso legado para todos nós. Um desses exemplos é a fundação da primeira Misericórdia em Portugal, sendo outras criadas por acção de D. Manuel I.

As principais razões da fundação e rápida expansão das Misericórdias portuguesas logo no século XVI são, em síntese, de ordem espiritual, porque os leigos aplicavam e viviam a sua doutrina, e de Estado, pois foi uma forma de afirmação do poder régio ao controlar e tornar muito mais eficaz a assistência.**





Apraz-me registar nesta publicação as 14 obras de misericórdia, da mesma fonte:

Obras corporais
Obras espirituais
Dar de comer a quem tem fome
Dar bom conselho a quem pede
Dar de beber a quem tem sede
Ensinar os ignorantes
Vestir os nus
Corrigir os que erram
Acolher os errantes
Consolar os que estão tristes
Visitar os doentes
Perdoar as injúrias
Remir os cativos
Suportar com paciência as fraquezas do próximo
Sepultar os mortos
Rogar a Deus pelos vivos e pelos defuntos


Por muito pouco dados à espiritualidade que sejamos, não há dúvida que nos sentimos tocados e dispostos a praticar alguns desses conceitos quando vemos a desgraça atingir o nosso semelhante.

Voltarei com o tema das Misericórdias, talvez um pouco mais alargado. 


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sábado, 15 de julho de 2017

Descobrir a grandeza das coisas anónimas

Leve os seus filhos a encontrar os grandes motivos para serem felizes nas pequenas coisas. Uma pessoa emocionalmente superficial precisa de grandes eventos para ter prazer, uma pessoa profunda encontra prazer nas coisas ocultas, nos fenómenos aparentemente imperceptíveis: no movimento das nuvens, no bailar das borboletas, no abraço de um amigo, no beijo de quem ama, num olhar de cumplicidade, no sorriso solidário de um desconhecido.



A felicidade não é obra do acaso, a felicidade é um exercício. Treine as crianças para serem excelentes observadoras. Saia pelos campos ou pelos jardins, faça-as acompanhar o desabrochar de uma flor e descubra com elas o belo invisível. Sinta com os seus olhos as coisas lindas que estão à sua volta.

Leve os jovens a viver os momentos singelos, a força que surge nas perdas, a segurança que brota no caos, a grandeza que emana dos pequenos gestos. As montanhas são formadas por ocultos grãos de areia.

As crianças serão felizes se aprenderem a contemplar o belo nos momentos de glória e de fracasso, nas flores da Primavera e nas folhas secas do Inverno. Eis o grande desafio da educação da emoção!

In: Cury, Augusto - Pais brilhantes, Professores fascinantes, páginas 41/42


Tempo de férias, tempo para reaprender a estarmos juntos. Oportunidade para andarmos de mãos dadas e apreciar tudo o que está à nossa volta. O autor bem o diz, descobrir as coisas que os nossos olhos não vêem normalmente e ensinar essa forma de ver às nossas crianças. Nem tudo o que luz é ouro, lá diz o povo. Muitas vezes é nas pequenas coisas que encontramos a verdadeira felicidade.

Desejo-vos um bom fim de semana.

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Imagem: daqui

segunda-feira, 10 de julho de 2017

As pombas





Vai-se a primeira pomba despertada…
Vai-se outra mais… mais outra… enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada.

E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada.

Também dos corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;

No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem… Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais.

      1859-1911


Raimundo da Mota de Azevedo Correia, juiz, poeta. Brasileiro.


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Poema - daqui
Imagem - daqui

sábado, 8 de julho de 2017

A formidável máquina que é o nosso cérebro




Máquina? Pergunto-me. Talvez não seja apropriado referir-me ao cérebro como uma simples máquina, dadas as suas implicações a nível emocional, da ética, da própria consciência, boa ou má, da mente, esse instrumento poderoso que tanto nos apresenta excelentes direcções como outras menos boas em perfeita simultaneidade e também a possibilidade de optar por uma ou outra.

Até para Alícia, psicóloga, cega, que mede as reacções emocionais dos seus doentes através das pulsações, este é assunto que causa perplexidade. Vejamos como ela se exprime, em dado momento:


-Mesmo depois de todos estes anos - disse Alícia - continuo pasmada com o poder aterrador da mente. Temos esse organismo instalado nas nossas cabeças, o qual, se o deixarmos, pode destruir-nos ao ponto de nunca voltarmos a ser os mesmos... e, no entanto, é nosso, pertence-nos. Não fazemos ideia daquilo que nos assenta nos ombros.*

Tive de parar aqui, na minha leitura, tal o impacto destas palavras que, ao fim e ao cabo, vão ao encontro das minhas preocupações. Vemos a função do cérebro alargada na sua qualidade de órgão que concorre para o bom funcionamento do corpo humano, para a de um autêntico organismo com o poder de vida ou de morte; com o poder de decisões importantes que podem afectar a nossa própria vida como a daqueles que nos rodeiam, dependentes de nós ou não, mas também de indecisões ou falhanços por incúria. 




Que dizer de pessoas que resolvem, por motivos que só elas conhecem na realidade, atropelar outras deliberadamente, esfaquear, atingir com armas letais, agredir de qualquer forma? Ou pequenas discussões que acabam em tragédia, muitas vezes entre amigos? Ou a decisão de encetar uma guerra, uma campanha que envolva a vida de todos, através do poder que o próprio povo confere aos seus representantes? Ou de, quem de direito com a obrigação de zelar pelo bem comum, não decidir coisa alguma, colocando-nos muitas vezes em situações de precariedade e de perigo?

Mas também há o outro lado. Um lado maravilhoso que nos faz sentir orgulho de pertencer a este grupo de seres vivos. Homens e mulheres que se sacrificam, que oferecem o seu bem-estar em prol daqueles que sofrem. Saem das suas casas, adoptam modos de vida sem comodidade para que outros possam ter aquele mínimo necessário à sua sobrevivência. E em situações de crise colocam a sua própria existência em risco para apoiar outros.   

E assim é feito o nosso dia-a-dia. A qualquer momento, a todo o momento, dispomos desta possibilidade imensa de fazer bem ou de fazer mal, de prejudicar ou de beneficiar. E isso só depende de nós. Alguém mais novo que eu já me disse: Da mesma forma que existe o "bem" também existe o "mal". Isso faz parte da nossa natureza. É uma perda de tempo andarmos à procura de motivos para isto ou aquilo

SERÁ?

Que Deus nos ajude!  

Desejo-vos dias abençoados.

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Em itálico:
*Excerto, pg 237, As Mãos Desaparecidas - Robert Wilson
Imagens: Pixabay

Mãe




I

Dantes, quando a deixava,
As férias já no fim,
Ela vinha à janela
Despedir-se de mim.

Depois, quando na estrada,
Olhava para trás,
Deitava-me ainda a benção
Para que eu fosse em paz.

Dali não se movia,
À vidraça encostada,
Até que eu me perdia
Já na curva da estrada.

Hoje, se olho, calo-me
E baixo os olhos meus!
Já não vem à janela
Para dizer-me adeus!

II

Chove, e a chuva é fria.
Noite! Nos montes distantes
O Inverno principia.
Um Inverno como dantes.

Ao redor do lume aceso
Todos ficamos a olhar...
Todos não, não somos todos,
Porque há vazio um lugar.

Esse lugar era o dela,
Que ninguém mais preencheu.
Mesmo com vida, na terra,
Era uma estrela no céu.

Alfredo Brochado
in "Bosque Sagrado" 



Nas minhas incertezas e dúvidas de adolescente, ela dizia-me: "No teu rosto, as tuas feições conjugam-se todas umas com as outras o que o torna perfeito." E quanto à minha silhueta, também me dizia de uma forma que me convencia: "Pareces uma espanhola", isso talvez obedecendo ao seu conceito de beleza e elegância. O certo é que me devolvia a confiança.

Hoje, dia do seu aniversário natalício.

Um bom fim de semana vos desejo, meus amigos.

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Poema: daqui
Imagem: daqui

domingo, 2 de julho de 2017

Porque






Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não
               
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

in: Mar Novo, 1958

     6/Nov/1919 - 2/Jul/2004

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Imagem: aqui

sábado, 1 de julho de 2017

O Belo é necessário




Neste mundo o lindo é necessário. Há mui poucas funções tão importantes como esta de ser encantadora. Que desespero na floresta se não houvesse o colibri! Exalar alegrias, irradiar venturas, possuir no meio das coisas sombrias uma transmudação de luz, ser o dourado do destino, a harmonia, a gentileza, a graça, é favorecer-te. A beleza basta ser bela para fazer bem. Há criatura que tem consigo a magia de fascinar tudo quanto a rodeia; às vezes nem ela mesmo o sabe, e é quando o prestígio é mais poderoso; a sua presença ilumina, o seu contacto aquece; se ela passa, ficas contente; se pára, és feliz; contemplá-la é viver; é a aurora com figura humana; não faz nada, nada que não seja estar presente, e é quanto basta para edenizar o lar doméstico; de todos os poros sai-lhe um paraíso; é um êxtase que ela distribui aos outros, sem mais trabalho que o de respirar ao pé deles. Ter um sorriso que - ninguém sabe a razão - diminui o peso da cadeia enorme arrastada em comum por todos os viventes, que queres que te diga? é divino. 

In: "Os trabalhadores do mar"


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Texto: Citador
Imagem: Pixabay

Rubis

A terra escondeu nas estranhas
as suas lágrimas de sangue
para que ninguém as pudesse ver

Jorge Sousa Braga (1957)
O Poeta nu

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Poemário: Assírio & Alvim
2012

domingo, 25 de junho de 2017

Para ti





Foi para ti 
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida


In: Raiz de Carvalho e outros poemas

Mia Couto

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Poema: Citador
Imagem: Pixabay

domingo, 18 de junho de 2017

Estamos de luto.

Estamos de luto, com o coração amachucado, sem forças para compreender e aceitar o que se passou e o que continua a passar-se. Florestas em fogo, inalação mortal de fumo, estrada pejada de carros queimados e seus ocupantes apanhados numa morte horrível. Hora aziaga em que tudo de mau se conjugou para sua e nossa desgraça. As palavras nesta altura são poucas para exprimir a nossa dor. Façamos o que nos for possível para consolar os familiares e ajudar os sobreviventes.

A hora é de solidariedade.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Você: Brasil


Eu gosto de você, Brasil,
porque você é parecido com a minha terra.
Eu bem sei que você é um mundão
e que a minha terra são
dez ilhas perdidas no Atlântico,
sem nenhuma importância no mapa.
Eu já ouvi falar de suas cidades:
A maravilha do Rio de Janeiro,
São Paulo dinâmico, Pernambuco, Bahia de Todos-os-Santos.
Ao passo que as daqui
Não passam de três pequenas cidades.
Eu sei tudo isso perfeitamente bem,
mas Você é parecido com a minha terra.

E o seu povo que se parece com o meu,
que todos eles vieram de escravos
com o cruzamento depois de lusitanos e estrangeiros.
E o seu falar português que se parece com o nosso falar,
ambos cheiros de um sotaque vagaroso,
de sílabas pisadas na ponta da língua,
de alongamentos timbrados nos lábios
e de expressões terníssimas e desconcertantes.
É a alma da nossa gente humilde que reflete
A alma das sua gente simples,

Ambas cristãs e supersticiosas,
sortindo ainda saudades antigas
dos sertões africanos,
compreendendo uma poesia natural,
que ninguém lhes disse,
e sabendo uma filosofia sem erudição,
que ninguém lhes ensinou.

E gosto dos seus sambas, Brasil, das suas batucadas.
dos seus cateretês, das suas toadas de negros,
caiu também no gosto da gente de cá,
que os canta dança e sente,
com o mesmo entusiasmo
e com o mesmo desalinho também...
As nossas mornas, as nossas polcas, os nossos cantares,
fazem lembrar as suas músicas,
com igual simplicidade e igual emoção.

Você, Brasil, é parecido com a minha terra,
as secas do Ceará são as nossas estiagens,
com a mesma intensidade de dramas e renúncias.
Mas há no entanto uma diferença:
é que os seus retirantes
têm léguas sem conta para fugir dos flagelos,
ao passo que aqui nem chega a haver os que fogem
porque seria para se afogarem no mar...

Ler mais aqui

Jorge Barbosa

Jorge Vera-Cruz Barbosa nasceu na Ilha de Santiago, Cabo Verde, em 1902. Faleceu em Cova da Piedade, Portugal, em 1971. Foi funcionário público. Um dos membros mais importantes do movimento Claridade.
Publicou: Arquipélago. São Vicente: Cabo Verde, 1936; Ambiente. Praia: Cabo Verde, 1941. Caderno de um Ilhéu. Lisboa: 1956.

Do site de António Miranda

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Imagem do Rio de Janeiro - Net

domingo, 21 de maio de 2017

A Lusitânia e os lusitanos

Diz-nos Estrabão que a Lusitânia era a maior das nações ibéricas e que os seus rios continham poalha de ouro. Sabemos que desta, outrora, próspera terra faz parte o nosso território e a estremadura espanhola. Dos lusitanos ou hispânicos ele e Trogo Pompeu contam que eram povo aguerrido com o corpo preparado para a abstinência e fadiga e ânimo para a morte... e que faziam sacrifícios aos deuses assim a modos que arrepiantes, bem ao modo da época. Destes heróis sobressai o mítico Viriato que é abatido por três dos seus oficiais comprados por Roma.



Camões ao cantar o peito ilustre lusitano a quem Neptuno e Marte obedeceram, convocando os deuses do Olimpo e tendo como pano de fundo a nossa epopeia marítima leva-nos a acreditar que os lusos, se é que existem ou existiram, são capazes de grandes feitos acima da sua condição humana. Por isso mesmo, temos na nossa História ecos de heroísmos que nos consolam e nos levam a acreditar que, por mais desolador que seja o nosso presente, há-de aparecer quem nos livrará desta apagada e vil tristeza.



D. Sebastião, o Desejado, foi para Alcácer-Quibir numa de teimosia ou por mau aconselhamento e lá ficou, enterrando consigo a nata da sociedade portuguesa. Mas sempre subsistiu em nós a crença de que ele viria um dia, numa manhã de nevoeiro, para resolver os nossos problemas. 

E não é que o nosso salvador, na sua auréola trágico-romântica, surge agora trazendo-nos esperanças nunca dantes apercebidas? Salvador de nome, de jure e de facto. Bem podem falar mal dele dizendo que foi golpe de marketing e coisas do género que não nos aquece nem arrefece. Cá por mim, podemos amar por todos e a todos. Eles que aprendam também a amar assim.

E mais. Doravante:

Cesse tudo o que a musa antiga canta que outro valor mais alto se alevanta.


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Imagens - Viriato e D.Sebastião, Rei de Portugal: Net
Em itálico: frases e expressões conhecidas da nossa literatura,
nomeadamente, d' "Os Lusíadas".
Ver aqui a Lusitânia de Estrabão. 

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Alde Manuce, a cultura clássica e o itálico

Ando muito preguiçosa com as minhas leituras. Até deixo livros a meio. Um caso de estudo. Ontem, madrugada adentro, estava eu a ler umas páginas mais de um livro que até já terá reclamado em viva voz, fui remetida para esta nota de rodapé, numa referência a "Os Comentários"(De Bello Gallico), de César: Alde Manuce, muito célebre, é o inventor dos caracteres itálicos*. Claro que isto chamou-me logo a atenção. Tantas e tantas vezes tenho usado o itálico sem nunca prestar atenção às suas origens. E que é que eu vi sobre o assunto?

Antes de assumirmos a invenção do itálico por Alde Manuce, aliás, Aldo Manuzio ou Aldus Manutius, nascido Teobaldo Manucci (1452-1515), temos a escrita cursiva desenvolvida por Niccolò d'Niccoli. A partir dessa escrita Francesco Griffo fizera as primeiras punções, instrumentos para gravar, e, em 1501, este tipo, conhecido como itálico ou aldino, é utilizado pela primeira vez na imprensa por Manuce.

Li que Aldus Manucius, humanista, editor e tipógrafo, encontra-se no grupo dos grandes divulgadores da cultura clássica, tendo publicado entre 1495 e 1509 obras de Aristóteles, Aristófanes, Thucydides, Sófocles, Herodoto, Xenofóne, Euripides e Demostenes, entre outras. Depois de 1513, foi a vez de obras de Platão, Pindar, Hesychius e Athenaeus. Além dos textos dos autores referidos, Aldus publicara obras de Pietro Bembo, Poliziano, Dante, Petrarca, Plínio, Pontanus, Sannazzaro, Quintiliano, Valerius Maximus, Erasmo de Roterdão, e muitos mais.
Na Imprensa Aldina, (esta designação será originada no seu nome - não vi outra explicação), foram compostos os primeiros livros de bolso, uma invenção muito ao gosto dos humanistas que viajavam muito.


Por outro lado:
A Biblioteca Nacional, Portugal, realizou em 2015, uma mostra da sua obra, referindo, em especial, um livro com a correspondência de Catarina de Siena, freira dominicana, hoje aceite como Doutora da Igreja, livro esse que atesta essa técnica, utilizada pela primeira vez, em que: a gravura apresenta três frases escritas - «iesu dolce; iesu amore; iesu» - numa letra diferente de todas as outras que a tipografia experimentara e conhecera até então: uma letra levemente inclinada à direita, um ductus que Aldo Manuzio desenhara e fizera abrir pelo gravador Francesco Grifo e que ajudava a expressar e a destacar o êxtase sentido pela santa. Um tipo novo que depressa começou a correr mundo e que hoje é conhecido como itálico. Uma forma de letra que no meio de um texto extenso se destaca e chama a atenção do leitor.

Ficou aqui demonstrado que só tenho a ganhar com leituras aturadas e consistentes mas, mesmo assim, noto uma falha, minha na certa. Não fiquei a perceber bem se Alde Manuce, Aldus Manutius ou Teobaldo Manucci, inventara o itálico ou apenas, o que já seria muito, terá utilizado a escrita anteriormente desenvolvida por d'Niccoli, inovando-a e dando-lhe uma utilização mais globalizante com a ajuda das punções de Griffo. Numa missiva a um amigo, Manutius refere em 1501, que: estamos a imprimir em formato bem pequeno, para que seja convenientemente bem segurado pelas mãos e aprendido pelo coração (sem falar em ser lido) por todos. Todos, com um sentido bem relativizado na nossa óptica de hoje.

Quanto à utilização do itálico por nós, já se sabe, uma delas é chamar a atenção para textos ou expressões que não são da nossa autoria, mesmo quando, ou especialmente, desconhecemos a fonte. Espero tê-lo feito, além de indicar a proveniência dos textos lidos.

Desejo-vos uma boa semana.

Abraço.


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*Benzoni, Juliette - O Quarto da Rainha, pg 68
Ver mais e conferir: aqui, aqui, aqui,aqui, aqui
O itálico do meu texto diz respeito a excertos destas referências.
1ªImagem (net): escrita cursiva de Francesco Griffo
2ª imagem: Sancta Catarina - BNP

sexta-feira, 12 de maio de 2017

A roda do poder

Pequeno poder? Grande poder? Penso que esta distinção não existe. Todo o poder é poder. Todo o poder tem a importância que lhe é dada por quem está na mó de baixo e reconhece no outro o poder de o afectar de algum modo. 

Logo de entrada aparece o favor que ao ser concedido cria desde logo uma relação de dependência. E não será preciso pensar-se em favores do tamanho do mundo. Bastará passar o processo que vinha no fim da lista para um lugar mais simpático. A consulta médica que não podia ser para hoje, mas que depois de bem conversado até passa a ser possível. O colega que precisa que o outro lhe pique o ponto. O funcionário que passa o amigo ou conhecido para o princípio de uma fila de atendimento, seja de emprego, de subsídios, serviços sociais, no aeroporto, seja o que for. São situações que na maior parte das vezes irão prejudicar de algum modo uma outra pessoa. 



E, paralelamente, a coisa vai aumentando na escala social. Chegam-nos notícias de grandes decisores, aqueles que têm a faca e o queijo na mão e que controlam a sociedade em toda a sua dimensão, fazendo sua a coisa pública. Ele é o tráfico de influências, ele é os grandes favores, os desvios e a má gestão beneficiando-se a si próprios e a amigos e clientela, um Deus nos acuda. A célebre cunha continua tão activa e necessária como o ar que respiramos.

Mas o poder não se esgota nisso. Temos o poder psicológico, de controlo sobre o outro nos mais ínfimos pormenores, que não é coisa pouca para quem o sofre. E isto pode verificar-se em casa, com a ascendência de um cônjuge sobre o outro, sobre os filhos, sobre os velhos. Pode verificar-se no trabalho, com os maus chefes, os colegas invejosos, emprateleirando quem lhes não caia no goto. E na sociedade em geral quanto ao que é diferente, a quem está em minoria, seja por deficiência física, por motivos raciais, religiosos, por orientação sexual.


Ocorre-me desejar que este ano de 2017, (já vai no seu 5º mês), nos traga mais tolerância, mais altruísmo e mais amor ao próximo; não prejudicar uns em benefício de outros, havendo divisão equitativa de oportunidades.


Utopia? Talvez não. Bastaria que o quiséssemos todos.

Para já, centremo-nos nisto: Maio é o mês de Maria, o mês do Coração e, também, o mês em que acaba o prazo para a entrega do IRS. 

Um bom dia a todos os que por aqui passarem.

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Imagem Pixabay
  

domingo, 7 de maio de 2017

Poema cansado de certos momentos





Foi-se tudo 
como areia fina escoada pelos dedos. 
Mãe! aqui me tens, 
metade de mim, 
sem saber que metade me pertence. 
Aqui me tens, 
de gestos saqueados, 
onde resta a saudade de ti 
e do teu mundo de medos. 
Meus braços, vê-os, estão gastos 
de pedir luz 
e de roubar distâncias. 
Meus braços 
cruzados 
em cruz de calvário dos meus degredos. 
Ai que isto de correr pela vida, 
dissipando a riqueza que me deste, 
de levar em cada beijo 
a pureza que pariste e embalaste, 
ai, mãe, só um louco ou um Messias 
estendendo a face de justo 


para os homens cuspirem o fel das veias, 
só um louco, ou um poeta ou um Cristo 
poderá beijar as rosas que os espinhos sangram 
e, embora rasgado, beber o perfume 
e continuar cantando. 
Mãe! tu nunca previste 
as geadas e os bichos 
roendo os campos adubados 
e o vizinho largando a fúria dos rebanhos 
pela flor menina dos meus prados. 
E assim, geraste-me despido 
como as ervas, 
e não olhaste os pegos nem as cobras, 
verdes, viscosas, espreitando dos nichos. 
De mão nua, entregaste-me ao destino. 
Os anjos ficaram lá em cima, cobardes, ansiosos. 
E sem elmos ou gibões, 
nem lutei nem vivi: 
fiquei quieto, absorto, em lágrimas 
— e lá ao fundo esperavam-me valados 
e chacais rancorosos. 




Mãe! aqui me tens, 
restos de mim. 
Guarda-me contigo agora, 
que és tu a minha justiça e o exílio 
do perdido e do achado. 
Guarda-me contigo agora 
e adormece-me as feridas 
com as guitarras do fado.

Mas caberá no teu regaço 
o fantasma do perdido? 

in "Mar de Sargaços" 


(1919-1989)


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Em 9/05/2017


Meus amigos:

Já me encontro em solo pátrio, sã e salva. :) 
Muito obrigada pelas vossas visitas.

Tenham uma óptima semana.

Abraço

Olinda

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Poema e imagens: Internet 

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Conquista




Livre não sou, que nem a própria vida 
Mo consente.
Mas a minha aguerrida
Teimosia
É quebrar dia a dia
Um grilhão da corrente.

Livre não sou, mas quero a liberdade.
Trago-a dentro de mim como um destino.
E vão lá desdizer o sonho do menino
Que se afogou e flutua
Entre nenúfares de serenidade
Depois de ter a lua!

in 'Cântico do Homem'


(1907-1995)


A liberdade, uma conquista de todos os dias. Existem grilhões impensáveis. Importante "é quebrar dia a dia um grilhão da corrente".

Meus amigos, estarei ausente durante alguns dias. Vou para um sítio, fora do país, aonde nesta altura talvez não devesse ir. Mas, é condição essencial do ser que se quer livre arrostar alguns perigos, conscientemente, quando necessário.

Então, até um dia destes. E sejam felizes por cá.

Abraço.

Olinda


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Poema: Citador
Imagem: Net

terça-feira, 25 de abril de 2017

Ai liberdade, liberdade, o que és?


Das várias definições que tenho encontrado, apraz-me registar esta de Joaquim Pessoa:




A liberdade é um vinho de excelência. Não faz sentido que não o compartilhes. A sedução de ambos ajuda-nos a viver, é o perfume da pele, a pele do vento, o segredo com que a flor atrai a abelha. As árvores amam-se, e até mesmo as pedras partilham o amor entre si. O verde perde-se de amor pelo azul. In Ano Comum-

E quando isso acontece é porque realmente somos livres. Livres de fazer o que queremos, com a tal ressalva de não pisar o outro. E porque hoje estou numa de citações deixo aqui mais uma, desta feita de Baruch Espinoza:


Quanto a mim, chamo de livre uma coisa que é e age apenas pela necessidade da sua natureza; de coagida, a que é determinada por uma outra a existir e a agir de uma determinada maneira. Carta LVIII-


Desejo-vos um bom 25 de Abril de 2017.


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Imagem - Pixabay
Citações - Citador

domingo, 23 de abril de 2017

Sempre o futuro, sempre! E o presente...






(A J. Félix dos Santos)

Sempre o futuro, sempre! E o presente
Nunca! Que seja esta hora em que se existe
De incerteza e de dor sempre a mais triste,
E só farte o desejo um bem ausente!

Ai! Que importa o futuro, se inclemente
Essa hora, em que a esperança nos consiste,
Chega… é presente… só à dor assiste?...
Assim, qual é a esperança que não mente?

Desventura ou delírio?... O que procuro,
Se me foge, é miragem enganosa,
Se me espera, pior, espectro impuro…

Assim a vida passa vagarosa:
O presente, a aspirar sempre ao futuro:
O futuro, uma sombra mentirosa

In: Sonetos


      (1842-1891)



É isso, a vida passa sim, mas não sei se vagarosa. O que eu sei é que preocupados com o futuro não vivemos o presente, praticamente. Preparamos o momento seguinte, o dia de amanhã, a próxima semana, o mês que há-de vir, os anos vindouros, a reforma. 

O trágico disso tudo é que nem sabemos se estamos vivos na milésima de segundo seguinte que o tempo transpõe no seu movimento aparente e inexorável, deixando de ser futuro.

Mas, Antero resolveu o problema. Espírito inquieto, meditativo, indo até ao âmago do valor das coisas, tomou o assunto nas suas mãos, agarrou o presente, fê-lo seu, acabando assim com todas as tuas dúvidas, numa atitude radical.

Eu, porém, prefiro a vida, a vida vivida momento a momento, numa gargalhada, num sorriso, num abraço. Também eu quero gerir esse presente, mas de outro modo: encarando a Vida como uma dádiva. 

A todos os que por aqui passarem, desejo um bom domingo.

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Poema: Banco de poesia Fernando Pessoa
Imagem: Pixabay