sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Oh mundo, oh sombra, oh zombaria, oh nada!




À variedade do mundo

Este nasce, outro morre, acolá soa
Um ribeiro que corre, aqui suave,
Um rouxinol se queixa brando e grave,
Um leão c'o rugido o monte atroa.

Aqui corre uma fera, acolá voa
C'o grãozinho na boca ao ninho üa ave,
Um demba o edifício, outro ergue a trave,
Um caça, outro pesca, outro enferoa.

Um nas armas se alista, outro as pendura
An soberbo Ministro aquele adora,
Outro segue do Paço a sombra amada,

Este muda de amor, aquele atura.
Do bem, de que um se alegra, o outro chora...
Oh mundo, oh sombra, oh zombaria, oh nada!

      (1610-1663)

Poeta, magistrado. Alguns dos seus poemas foram reunidos na Fénix Renascida.
A maior parte da sua obra, em verso e em prosa, nunca veio a lume.

====
Poema: in Projecto Vercial
Imagem: Pixabay

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Voici: la doudoune, le velours, le satin



La doudoune voltou este ano em todo o seu esplendor. Curta, comprida, cintada, fluida; em formato blusão, poncho, casaco, quimono; em diversos materiais, polyester, polyuréthane, coton, nylon, mais... bien gonflée. Uma peça de vestuário bem urbana, para usar com calças de tweed, uma saia fluide ou um vestido tube. A ideia é que vai bem com tudo e em qualquer situação. Penso que será o nosso kispo*, mas permitam-me continuar a tratá-lo no feminino pois acho "la doudoune" simplesmente adorável. O importante é que é reconfortante e quente em tempo de frio.




Uma outra novidade é o regresso do velours. Há quanto tempo não via um vestido, um casaquinho, uma coisinha qualquer em veludo!Pois, parece que agora é um must, apesar de haver notícias do seu ressurgimento em 2013, talvez em menor escala. Confesso que não me sinto nada tentada. Porém, noblesse oblige, não se pode fechar os olhos ao que acontece ao nosso redor. D'où vient le velours, grande tendance de la saison - interrogam-se na Marie France.


Também um outro tecido que agora está na moda é o satin. Há muitos anos que ele não faz grandes aparições no nosso dia-a-dia. De cetim talvez só vestidos de noiva e vestidos de noite, tops, lingerie, pelo menos é o que me parece. Contudo, com tantos tipos de cetim que há não me admiro nada que sejam usados à luz do dia e informalmente. 

Na revista Voici, donde retirei o apontamento sobre "la doudoune", há um conjunto composto de blouson en satin, sac en cuir, chemise en coton, patalon en velours, com a legenda: Dans les rues de Milan le satin est d'or.  Visto assim parece-me bem. Aliás, a revista refere ainda, entre outras coisas: Quant au satin, loin des années 80, il nous revient moins scintillant mais tout aussi brillant.



Dada a minha proverbial inaptidão para estas coisas de informática não me é possível trazer para aqui a imagem daquilo que descrevo no parágrafo anterior. Poderia fotografar a imagem, visto ter a revista. Mas, enfim. Para o cetim fui buscar as calças azul-turquesa** do blog de Lady Zorro, embora se refira ao inverno de 2016/2017. Parece que essa tendência já vem daí. 

Afinal, eis a imagem. Uma alma caridosa, a minha filha, ajudou-me nesta tarefa.

Desejo-vos um bom fim-de-semana. Ah! Ainda é quinta-feira. Voltarei, amanhã.






17/11/2017

Vou passar para aqui as minhas dúvidas quanto à cor das calças a que chamei "azul-turquesa":

**Azul-turquesa é mais claro, não?
Bem, talvez seja azul petróleo. Ou verde petróleo?
Cada vez me enterro mais, se calhar...

Uma ajudinha?

Agora sim. Bom fim-de-semana.

(Nota: não consigo pôr as letras do mesmo tamanho. Isto assumiu que eu queria letras pequeninas e não há volta a dar-lhe.)

Até que enfim. Consegui mudar o tamanho da letra.
====
-Magazine Voici nº 1565, du 3 au 9 novembre
As duas primeiras imagens da revista ELLE
*Ou parka
**Azul-turquesa é mais claro, não?
Bem, talvez seja azul petróleo. Ou verde petróleo?
Cada vez me enterro mais, se calhar...

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

As cinzas - pensar nelas é preciso

O facto de não ter chovido é bom. É bom??? Admirar-se-á, e com razão, quem tenha a gentileza de me ler. Mas eu explico-me. Depois dos incêndios devastadores de vidas humanas e das nossas florestas, este compasso de espera da mãe-natureza poderá significar uma oportunidade para reparar e reconstruir as casas destruídas e tudo o mais que está à vista de todos. Nas nossas preocupações tem de estar, antes de tudo, o acarinhamento das pessoas que perderam os seus filhos e outros familiares e tudo o que tinham e que por isso mesmo se vêem perdidas na vida.



Por outro lado, há também toda uma envolvência ambiental que merece atenção. Não chove, o que é muito mau. Contudo, sabemos que as alterações climáticas criam situações de grande desequilíbrio e, por isso, tanto dá para não chover como para chover demasiado, com chuvas que poderão ser torrenciais. Aqui coloca-se o problema das cinzas decorrentes dos incêndios. Com a chuva, elas resvalam e vão alterar a qualidade da água nas barragens o que afectará a vida de todos nós. Diz quem sabe que há soluções técnicas para enfrentar o problema das cinzas resultantes dos incêndios, mas "dá trabalho" e exige que todos os vizinhos também o façam. Segundo a mesma fonte, a água corre porque tem um declive direito, mas se se fizerem valas isso já não acontece, vai-se infiltrando no terreno.

Há muita coisa em que pensar e outras tantas para fazer, reconheço. Mas isto de que estamos a falar, as cinzas, é assunto a que urge atender porque poderá transformar-se numa daquelas situações incontroláveis se não for acautelado a tempo e horas. Não esperemos pelas ansiadas chuvas para o fazer.


====
Ver:
Ambientalista Eugénio Sequeira:
Especialista alerta para "grande problema" das cinzas quando chover
DN


terça-feira, 14 de novembro de 2017

Pergunta-me





Pergunta-me 
se ainda és o meu fogo
se acendes ainda
o minuto de cinza
se despertas
a ave magoada
que se queda
na árvore do meu sangue

Pergunta-me
se o vento não traz nada
se o vento tudo arrasta
se na quietude do lago
repousaram a fúria
e o tropel de mil cavalos

Pergunta-me
se te voltei a encontrar
de todas as vezes que me detive
junto das pontes enevoadas
e se eras tu
quem eu via
na infinita dispersão do meu ser
se eras tu
que reunias pedaços do meu poema
reconstruindo
a folha rasgada
na minha mão descrente

Qualquer coisa
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer 


In:Raiz de Orvalho

António Emílio Leite Couto, moçambicano, escritor, biólogo.
O seu novo livro: "O Bebedor de Horizontes" que o autor classifica como o seu maior desafio enquanto escritor. Confira, aqui.

====
Poema: Citador
Imagem: Pixabay


segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Fintar a morte

Era a guerra. Nas minhas costas sentia o crepitar das balas e a moto, puxada ao máximo, galgava por onde desse. Eu era a protecção de quem ia a conduzir e não podia ser doutro modo. Para a frente é que era o caminho em direcção ao downtown, onde morava uma prima minha. A filha mais nova, a Margarida, de 3 anos, saltou de alegria quando nos viu, cantando e dançando. E com tanta pouca sorte que caiu e bateu com a boca no fio da mesinha da sala. Muito sangue. Não havia meio de fazê-lo parar. Tivemos de decidir depressa e ir à procura de um hospital onde pudesse ser atendida. Com a tensão existente, tivemos de passar por vários postos de controlo. O importante é que ela ficou bem. Desses dias de susto compostos de vários episódios aflitivos, é o que mais me emociona ainda hoje. A lembrança das filas de racionamento, da pouca água, do perigo constante, serve-me para dar importância a umas coisas e não a outras, relativizando-as.


Assim, acredito que toda a história tem vários lados e a própria História, como disciplina, sendo uma construção humana, é passível de várias interpretações. Ocorre-me perguntar, de que são feitos os heróis? Respondo: Penso que são feitos, muitas vezes, de momentos fortuitos. E, sim, precisamos deles e dos nossos mitos e lendas como do pão para a boca. Os rituais associados a essa representação são elementos fundamentais para que nos sintamos unidos como povo. São eles que nos guiam e, em momentos de crise, é bom que os tenhamos bem presentes. Lembro-me de ter lido, no tempo em que tinha de fazer essas leituras, que na mitologia romana os  mortos tinham a designação de Manes, espíritos dos entes queridos com a função de proteger a família, uma espécie de deuses do lar, já para não falar de culturas no nosso mundo contemporâneo que têm um relacionamento similar com a morte.

Camões, em "Os Lusíadas", universaliza para sempre a melhor maneira de fintar a morte, pondo a tónica em: (...) E aqueles que por obras valerosas/ Se vão da lei da morte libertando;/ Cantando espalharei por toda a parte/ Se a tanto me ajudar o engenho e arte.



É isso. Tenhamos elevação de espírito. Honremos os nossos mortos, celebrando a vida. As nossas conquistas de todos os dias, pequenas ou grandes, não interessa o tamanho. O fundamental é sentir que estamos a construir algo de útil para nós e para os outros, com a mente aberta. Ficarmos enredados em tricas, intrigas e quejandos é uma forma depressiva de nos diminuirmos como povo. Cantemos e dancemos em honra dos nossos heróis, espalhando por toda a parte a notícia do legado de que somos herdeiros.

====
Imagem 1 - daqui
Imagem 2