quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Esta poesia do calor amarela e seca



Esta poesia do calor amarela e seca
esta campina agreste a demarcar-me
os caminhos ásperos e mediterrânicos
de meu país de silvas e piteiras,
com o sol a pique sobre a poeira
das planuras desabrigadas

Paira na charneca taciturna
o silêncio de um grito por dar
e o húmus gretado pela impiedade solar
abre as entranhas à brisa
que em suas crinas arrasta
um verde som de frescura

os lábios da terras ressequidos
vão pedindo ao vento gotas de mar
neste comum queimar de terra
nada que salpique a poeira de pureza
um céu cujo azul o calor não deixa ver
e uma luz baça e sufocante
que nos enlouquece e nos faz delirar

Sinto a irreal carícia das searas ondulando
e um intenso cheiro a campo
deserta meu sentimento
Por entre o rumor das cigarras
o compasso desta hora em constante despedida

In:Pátria prometida - excerto pg.16



E já chove. Pelo menos, choveu ontem à noite aqui na minha aldeia. Que ela, a chuva, continue a cair mansa e benfazeja. Que a natureza nos tome ao seu cuidado e faça a gestão do mar de cinzas que grassa pelo nosso país.

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Poema: daqui
Imagem: Pixabay

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Ler nas estrelas

E a chuva que não vinha. Todos os anos era aquele sufoco. Ele espreitava todos os sinais, sopesava-os e ia dizendo da sua justiça. À noite espreitava o céu. Huuumm...a lua com aquele halo amarelo não dizia nada de bom, mas a estrada de santiago prometia, leitosa, poderia ser um bom presságio. De dia via as nuvens a formarem-se prenhes de água, ai, mas os pássaros todos em revoada, prenúncio de vento que as levaria para longe. E assim era. Todas a despejarem-se no mar. Aquela leitura já a sabíamos de cor e, realmente, não falhava. Até nós olhávamos para a abóbada celeste com as mesmas  perguntas.

Chegava o dia em que a chuva, marota, depois de várias negaças lá resolvia visitar-nos. Não importava se era pouca ou muita, era sempre uma festa. Lavava a alma. Para já, o importante era que desse para as sementeiras. Tudo preparado naquela espera, toca de correr para os campos. E o milho medrava naquele chão de pousio durante tanto tempo, feliz por poder mostrar do que era capaz, com todos os seus elementos.

Agora o leitor das estrelas voltava a sua atenção para as plantinhas que, quase a medo, iam despontando. Ou o medo estaria no seu coração? Auscultava-lhes a cor, a resistência, o futuro. Se resistissem até à monda e a chuva voltasse em tempo devido tínhamos colheita garantida. E recomeçava o perscrutamento dos céus, o comportamento da lua, das constelações, do voo dos pássaros, do sol, quente e devastador.

Até que um dia, um belo dia, num ano qualquer, dava-se o milagre e completava-se o ciclo. Sementeira, monda, colheita, passando pelo ansiado dia de Santo André em que íamos comer milho verde assado, não sei se havia dispensa da escola ou como é que era mas o certo é que isso faz parte das minhas memórias. Na colheita, os homens e mulheres chamados para o efeito começavam logo de manhã e, pelo caminho, iam deixando algumas espigas para nós recolhermos.

E ajudávamos a descascar o precioso cereal à procura de uma espiga vermelha. E ouvíamos as histórias que eles contavam. E espreitávamos com afinco os bolos de milho, a mandioca, a batata doce que punham a assar na cinza quente.

O leitor das estrelas. O meu pai.

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Dedico este pequeno texto a quem por aqui por passar, com votos de dias de muita esperança.

Abraço.

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1ªImagem: Pixabay
2ª imagem:net

domingo, 15 de outubro de 2017

Isto é Verão ou quê?



Completamente virado do avesso o tempo prodigaliza-nos temperaturas que convidam ao chinelo no pé, à blusinha de alças, ao uso de calções, ao biquini, ao fato de banho, estendendo-nos na areia molhada, passando bronzeador, dando uns bons mergulhos, sozinhos ou com a família e amigos, com uma boa merenda, enfim a tudo a que teríamos direito num clima tropical.

Mas, não é esse o caso e para que tudo funcione por cá é fundamental que as quatro estações do ano sigam o seu ciclo e em cada época a natureza colabore connosco para que não nos falte o necessário. A verdade é que o destempero do nosso clima temperado já há muito se nota com a falta de chuva: o chão cada dia mais crestado, as culturas fenecendo, os animais quase sem água para beber. Há locais onde a água nas torneiras já não apareceria se a edilidade não a mandasse buscar, bombeando-a depois para os depósitos.

A juntar a isso o fim da tal "época de fogos" que já tinha sido decretado, levando ao encolhimento de recursos, afinal reacendeu e então quem de direito, desavisado, foi apanhado desprevenido como se não existisse tecnologia que ajude a fazer previsões* a fim de se tomarem as devidas providências a tempo e horas. Ou talvez não haja.

Preocupemo-nos, queridos concidadãos. Não basta aproveitar o bom tempo e dizer e desejar: para mim era praia o ano todo, este calorzinho vem mesmo a calhar, deu para descontrair, e etc. Temos de fazer alguma coisa. E como não possuímos poderes sobrenaturais e já não se vê muita fé na dança da chuva ou nas procissões há que poupar a água em nossas casas. Quem não souber como fazer da melhor forma pesquise na internet. Há muita informação sobre isso. 

Lembremo-nos que de toda a água que existe no nosso planeta a água doce tem uma percentagem pequeníssima. E da água potável então nem se fala: há regiões no globo que não a têm.

Foi só um desabafo.

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NOTA EM 16/10/2017

Incêndios:

.800 246 246 - Protecçao civil (número de emergência)

Fonte: Rádio Renascença


.A Segurança Social está a disponibilizar apoio de emergência às populações afectadas pelos incêndios em vários postos dos distritos de Viana do Castelo, Guarda e Coimbra (...)


Fonte: Público online

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*climáticas
Imagem: Pixabay 

sábado, 14 de outubro de 2017

Olá, amigos

Depois de uma ausência não programada, eis-me de volta para a continuação da nossa troca de palavras, instrumento fundamental para este nosso convívio. Nesta troca acontecem coisas maravilhosas, sentimo-nos unidos e solidários e quando um falta todos se preocupam e procuram saber o que se passa, se se está doente se a vida vai correndo dentro da normalidade.

Hoje, trago-vos uma canção de Tozé Brito e Paulo de Carvalho, que traduz a tal preocupação de que falo acima e interesse pelo que se passa com o outro. Mas, ou muito me engano ou há neste interesse concreto um problema que envolve os dois amigos, no diálogo cantado, que é gostarem da mesma mulher(?). Não sei. O que eu sei é que gosto muito destes dois, no registo de 1979. 
Por isso, ei-los:


Quanto ao mais, cá vamos indo, sentados na primeira fila deste espectáculo que é o nosso país. Todos os dias aparecem novos actores, bem, que de novos não têm quase nada, com as mesmas falas mansas preparando-se para as eleições que não estão muito longe. E quando temos o poder na ponta dos dedos, prontos para fazer a tal cruz, o que acontece é que não há muito por onde escolher.

Voltarei para finalizarmos a conversa iniciada no post anterior. Que já tarda.

Um bom fim de semana a todos, é o que vos desejo.

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Nota: Não era este o video que queria trazer. Não consegui importar o que me interessava. Há como que um acompanhamento sobreposto. Sorry.
video: youtube

terça-feira, 29 de agosto de 2017

I giorni della settimana

-Settimana. Gosto desta palavra. Coloca-nos logo no número exacto de dias de uma semana. Há muito que quase nos esquecemos que uma semana tem sete dias com a história dos dias úteis que são cinco. E porquê úteis? será que sábado e domingo são dias inúteis? É por isso que gosto quando os italianos se referem aos dias de trabalho como giorni lavorativi. Não há que enganar.

Assim discorria o elemento mais velho da família com a propriedade que a antiguidade lhe conferia, a propósito dos chamados dias de semana ou dias úteis que alguém deixou escapar.


Estávamos no terraço a aspirar por algum fresco que eventualmente nos quisesse visitar. Por comum acordo, novos, velhos e assim assim tínhamos colocado os telemóveis e outros aparelhos electrónicos num cesto, de modo a não nos desviarem do nosso convívio dominical. Por isso, nada de facebooks, twitters ou quejandos.

Com o rumo que a conversa levava, um dos meus sobrinhos lembrou-se das semelhanças dos dias da semana em francês, espanhol e italiano. E lá recitou: 
para o francês temos: dimanche, lundi, mardi, mercredi, jeudi, vendredi, samedi; para o espanhol: domingo, lunes, martes, miércoles, jueves, viernes, sábado; para o italiano: domenica, lunedì, martedì, mercoledì, giovedì, venerdì, sabato.

- Palmas para tão grande declamador. 
E nosso mais velho, referido acima, ainda comentou:
Vá lá, ao menos sabes que domingo é o primeiro dia da semana.

Então a minha filha interpelou o nosso sábio
Olha lá, e em português porque é que, sendo também um idioma de origem latina, os dias da semana são tão diferentes? 
- Ah! Isso já não sei. Também não tenho que saber tudo, não achas? Já agora o que é que sabes sobre isso?
- O que eu sei é que tem a ver com feria, dia de descanso, para os cinco dias a que chamamos dias de trabalho ou dias úteis...Giro, não é? Olha, pesquisa!




-Boa! Esta é a parte em que podemos ir buscar os telemóveis para ver como é ... - exclamou o benjamim. 
-Os telemóveis não, um telemóvel e já é muito ou então uma enciclopédia- admoestou o pai

E o que é que descobrirão os nossos diligentes pesquisadores? Declarou-se, então, aberta uma caça ao tesouro. Todos debruçados sobre o telemóvel de serviço, lá partiram para esse desbravamento.

Voltaremos. Mas, entretanto, o nosso querido leitor o que nos poderá dizer sobre o assunto?

De assinalar, a despropósito do tema deste post, que o tempo refrescou, graças a Deus. Já choveu. Apesar da tendência para as inundações, com as sarjetas entupidas como é hábito, a chuvinha de hoje soube que nem uma bênção.

Desejo-vos uma boa terça-feira.

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Imagens: Pixabay